UM COLEGA DO TEATRO FOI PRESO. E NEM FOI A DITADURA

Postado em 26 de dezembro de 2013

Nos sábados à tarde em que havia ensaio do grupo de teatro infantil na casa da Teresa Cuoco, a mãe dela, Lourdes, preparava um lanche digno de se ir sem ter almoçado durante três dias. Aliás, até então eu nunca tinha conhecido uma família tão engajada nas atividades de uma de suas integrantes como a família da Teresa, adolescente como nós, talentosa e dedicada. O Cláudio Cuoco, pai da Teresa – gerente de uma agência do Banco Bandeirantes e arquiteto amador de mão cheia – acompanhava os ensaios junto com a Lourdes e a Ângela, irmã um ano mais velha da Teresa, inclusive ajudando nas marcações que simulávamos na sala e que seriam feitas depois, no palco.

No sobrado da Avenida Morumbi, no Brooklin, onde moravam, “batíamos texto”, o Serginho, a Teresa, eu e o Ribaldo dirigindo, mais um ator adulto cujo nome, por motivos que você verá adiante, vou trocar por Bartolo. Começávamos por volta das 14 ou 15 horas e íamos até perto das 20 horas e quanto mais se aproximava o dia da estreia, mais regulares eram os ensaios.
Como tanto eu quanto o Serginho morávamos no centro, pegávamos o ônibus juntos, tanto para ir como para voltar do então distante bairro do Morumbi. É engraçado como a noção de distância muda com o tempo. Certamente gastávamos muito menos tempo do que hoje se gasta para andar no trânsito de São Paulo, mas a sensação de distância era maior, talvez porque as pessoas se deslocassem menos, sei lá.

Neste sábado após o ensaio, nos deliciamos como sempre com o lanche, conversamos mais um pouco e nos despedimos.
Subíamos pela rua os quatro – Serginho, Ribaldo, Bartolo e eu – em direção ao ponto de ônibus (ninguém tinha carro), quando o Bartolo, que morava sozinho, disse:
- Vocês me acompanham até o Pão de Açúcar? Preciso comprar umas coisas pra levar para casa.
A noite estava gostosa, o supermercado na esquina da Av. Santo Amaro com Av. Morumbi estava a poucas quadras, fomos juntos até lá. O Ribaldo aproveitou para também comprar algumas coisas, eu e o Serginho ficamos conversando do lado de fora. Em poucos minutos o Ribaldo juntou-se a nós. De lá seguiríamos para o próximo ponto de ônibus, já na Av. Santo Amaro. Conversávamos animadamente enquanto esperávamos o Bartolo que, no entanto, começou a demorar demais.
Entramos novamente no supermercado, que tinha portas para a Santo Amaro e para a Morumbi, percorremos os corredores, mas nada do Bartolo. Sumiu. Evaporou.
Ao passar por dois funcionários, ouvi metade de uma conversa:
- … eu vi o cara pegar, flagrei na hora.
– O PM estava voltando pra viatura, ainda bem que deu tempo de chamar.
Juntei-me novamente ao Ribaldo e Serginho, relatando o que acabava de ouvir e o Ribaldo, com ar de reprovação, falou:
- Eu cansei de avisar. Sabia que qualquer dia uma coisa assim ia acontecer. Com essa mania de querer levar vantagem que o Bartolo tem, só podia dar nisso.
Caminhamos os três em silêncio até o ponto de ônibus, o Ribaldo pegou o dele para Vila Mariana, eu e o Serginho resolvemos pegar mais adiante. Começamos a andar pela Avenida Santo Amaro, ainda movimentada em direção ao centro naquela noite de sábado. Longos minutos se passaram caminhando até que um de nós dois dissesse alguma coisa.
O sentimento era difícil de exprimir. Um pouco de desencanto, pois o Bartolo, na faixa dos seus 50 anos, assim como o Ribaldo, era um pouco modelo para nós. Um pouco de raiva também. Não da polícia, se é que ele tinha sido preso mesmo. Mas do próprio Bartolo. Ninguém era rico, mas ninguém passava fome ao ponto de precisar furtar coisas num supermercado. Pelo jeito só o Ribaldo sabia desse hábito do nosso colega.
Sem grandes questionamentos filosóficos. Apenas ficava uma coisa ruim. Não sabíamos o que era pior : ter um colega larápio ou ele ter sido preso. Era um tempo em que uma delegacia era potencial símbolo de truculência e péssimo agouro, fosse qual fosse o motivo de alguém ir parar em uma.
Quando começamos a conversar já tínhamos andado umas 7 ou 8 quadras. No final dos anos 60 a cidade de São Paulo tinha grandes diferenças em relação à cidade que conhecemos hoje. Uma delas era a absoluta despreocupação em andar à noite ou mesmo de madrugada. Outra era o trânsito que diminuía rapidamente após as 20 ou 21 horas. O que certamente enchia o saco era o medo de que uma viatura policial, ao ver dois adolescentes andando sozinhos numa avenida que aos poucos ia ficando silenciosa, resolvesse pedir documentos, permissão dos pais para estar na rua, etc.
Ainda existia o Juizado de Menores que dispunha de viaturas policiais, só que em vez do clássico e temido branco e preto, eram branco e azul claro. Porque essa cor, não faço ideia. Talvez a intenção original tivesse sido de criar uma viatura para meninos, com azul celeste e outra para meninas, branco e rosa pink, vai lá saber o que andava na cabeça dos policiais da ditadura, né?
Mas não tinha viatura pink, não. E nem fomos abordados por ninguém. A conversa continuou com grandes intervalos de silêncio, como se usássemos o ato de andar à noite como forma de digerir o episódio.
O fato é que não chegamos a pegar ônibus naquela noite. Creio que teria sido sufocante, mesmo que estivesse vazio. Precisávamos caminhar. E percorremos os mais de 12 quilômetros da casa da Teresa até o centro a pé. Certamente gastamos bem mais de duas horas. Acompanhei o Serginho até seu prédio na Rua do Arouche e desci pela Avenida Ipiranga, já quase deserta, até a Cásper Líbero. Devo ter chegado por volta da meia noite ou mais, porque o passo do caminhar foi lento.

Não havia celular, telefones públicos eram espaçados e nem sempre funcionavam, de modo que a semana se estendeu com as rotinas de trabalho e estudo, até que na sexta o Ribaldo me ligou no trabalho confirmando que no próximo sábado haveria novo ensaio. Faltavam poucas semanas para mais esta estreia. Aproveitou para avisar que tinha falado com o Bartolo, que ele estava bem e também iria.
Claro que no sábado, quando nos encontramos novamente, a primeira coisa que perguntamos a ele foi o que tinha acontecido. Até a Teresa e família, que souberam do “desaparecimento” num telefonema anterior do Ribaldo, estavam curiosos.
O Bartolo, com seu ar cômico-dramático de sempre afirmou:
- Só pode ter sido desencontro. Eu saí pela Avenida Morumbi, vocês ficaram me esperando na saída da Avenida Santo Amaro.
Nada mais idiota pra se dizer. Não fazia sentido algum. Até porque nós vasculhamos o supermercado inteiro. Além disso, ele pegaria seu ônibus no mesmo ponto que nós.
Todos fizemos cara de concordância e tocamos o ensaio.

Logo o espetáculo estreou, foi bem sucedido, mas nossa relação com o Bartolo nunca voltou a ser a mesma. E, claro, ninguém mais foi ao supermercado com o Bartolo.