SÃO PAULO DO MEU TEMPO DE OFFICE BOY

Postado em 25 de janeiro de 2019

Nos anos 60 eu cruzava as ruas do centro, de pastinha na mão, muitas tarefas de bancos pra fazer e muita vontade de conhecer lugares e coisas. Duas casas eram uma atração especial. A Casa Edmea, na Av. Cásper Líbero, com seus queijos e laticínios finos e a Casa Godinho, que vendia arenque defumado, ovas secas defumadas de tainha, barras de alcaçuz, cubinhos de açúcar importados e outras iguarias caras e muito atraentes para mim.

Meu pai adorava tudo isso e, quando podia, comprava seu arenque que degustava avidamente com uma cerveja gelada. Antártica, claro. Nessa época era a cerveja absoluta em São Paulo.
Durante muitos anos essas eram, entre outras poucas, duas referências importantes da gastronomia. Eu mesmo, às vezes, me aventurava a comprar alguma coisa que o salário de office boy permitisse. Geralmente uma bobagem, guloseima, mas sendo importada e cara eu a degustava como um rei após vitória na batalha.
Outros pontos elegantes da velha São Paulo faziam minha alegria. No começo dos anos 70, na Rua do Comércio, conhecida como Beco da Cachaça, a Tabacaria Sion vendia belíssimos cachimbos e perfumados fumos importados.

Passagem obrigatória no meu trabalho de funcionário de banco no começo dessa década, adquiri o hábito do cachimbo e da preparação de fumos com técnicas especiais, eventualmente acrescentando algum produto especial ou aromático comprado na Godinho.

Os anos passaram, o centro deixou de ser minha região de trabalho e a cidade se transformou. Ano passado, estando na Líbero Badaró, não resisti a dar um pulo no empório que nunca mais tinha visitado e que, em minha memória ainda reinava com seus produtos exclusivos e caros.
O tempo apaga ilusões também. Perguntado, o gerente me disse que há muitos anos não vende arenque defumado nem ovas, pois com a onda de comida natural, baixo teor de sódio, veganos, etc. etc. as vendas desses produtos despencaram. O alcaçuz, ninguém mais compra, disse ele. Não é um sabor apreciado no Brasil.
Meu olhar em volta revelou que praticamente todos os produtos importados presentes nas ainda majestosas prateleiras de madeira, são banais hoje em qualquer bom supermercado e com preços muito mias baixos.

Ao sair pra rua novamente deixava pra trás uma casa simpática, com atendimento amigável pouco comum na São Paulo de hoje, com excelentes salgados e doces, mas já despida de seu encanto de exclusividade de outrora. Deixa pra trás uma lembrança de minha adolescência.