REPÚBLICA – A PRAÇA HIPPIE EM 60 E 70

Postado em 18 de maio de 2014

Um feriado ou final de semana do começo dos anos 70 no centro da cidade de São Paulo, onde morávamos, oferecia entre seus atrativos uma variedade enorme de cinemas. Nos mais elegantes como Ipiranga, Marabá, Marrocos, Rivoli, Olido, Metro e outros, apenas um filme, mas sempre recente. Nos mais populares, sessão dupla. Era entrar às duas da tarde, entupir-se de pipoca com manteiga, Mentex, drops Dulcora e sair às seis.

Nesse horário, dependendo da faixa etária e do bolso, cada um ia para diferentes caminhos. A rapaziada de minha idade buscava as lanchonetes.
Um belo cheeseburger, ou melhor, x-burguer, como aparecia em vários cardápios, e um milk-shake formavam uma dupla ideal para um final de tarde, após quilos de pipoca e emoção.
À noite, namorar, para quem tinha namorada, ou encontrar amigos. Às vezes as duas coisas ao mesmo tempo na casa de alguém, no salão do prédio onde alguém morasse ou até mesmo na rua, em frente ao endereço de um integrante da turma. É bom frisar que o namoro era algo bastante limitado nessa época. Pegar na mão, abracinho, beijinho furtivo e olhe lá.
Sentar-se em banco de praça, mureta de prédio ou ilha da rua era comum e ficar até onze da noite na rua não oferecia risco, exceto às vezes ter que mostrar documentos para alguma viatura recheada de policiais ávidos por caçar subversivos, na típica paranoia estatal da época.
Nesses anos meu irmão Vicente começou a fazer artesanato com couro e levar à Praça da República, onde mais alguns artesãos também expunham seus trabalhos aos domingos de manhã, no que passou a ser conhecido como Feira Hippie.
Com o tempo, a praça foi enchendo de novos expositores, o Vicente levantava cada vez mais cedo para ocupar seu lugar e logo veio o cadastro da prefeitura que formalizou quem podia expor ou não.
Ainda sob os ventos e influência de Woodstock, a maior parte do que se vendia nessa feira eram cintos, carteiras, bolsas, porta-moedas, coisas que o Vicente fazia, e outras como batas coloridas estilo indiano, camisetas e roupas tingidas e pintadas na técnica do batik, peças de decoração coloridíssimas e de estética duvidosa, quadros, etc.
Aos poucos foram chegando expositores que vendiam produtos claramente industrializados e contavam com o repúdio dos artesãos – ocupantes originais da feira – mas, como em tudo o que a política mete a mão, tinham licença da prefeitura, algum apadrinhamento e desse modo foram lá ocupando espaços.
Em poucos meses o que o Vicente faturava numa manhã de domingo na Feira Hippie era mais do que o que eu conseguia ganhar de salário como bancário.
Com uma inegável habilidade manual e uma criatividade que parecia não ter fim, a produção de peças aumentou em volume e variedade. Até poucos anos eu ainda tinha na sala desta minha casa de hoje espelhos de interruptor da sala feitos em couro pelo meu irmão, nos anos 70.
Através do trabalho do Vicente eu conheci a cidade do Embu, que não tinha o nome de Embu das Artes como tem hoje. Era apenas Embu. Expunham domingo de manhã na Praça da República e perto das 13h iam para o Embu, onde começou outra feira semelhante, em função do grande numero de artesãos que já moravam naquela cidade.
Minha companhia, quando ocorria, não era propriamente de ajuda ou apoio, já que o Vicente sempre gostou de fazer quase tudo sozinho e nunca foi muito amigo de pitaco alheio. Mas a diversão e o companheirismo estavam presentes em vários momentos, inclusive quando, ainda de madrugada, era o caso de eu ir até um bar da Av. Ipiranga para comprar lanches e café preto, já que a certa altura não bastava mais chegar às 7 ou 8 horas da manhã para ocupar seu lugar, mesmo tendo a tal licença.
Comer um misto quente ao som de uma “Janis Joplin” desafinada cantando na banca ao lado ou tendo as narinas invadidas pelo fumacê do mato queimado, às 5 horas da manhã, nunca foi muito a minha praia, de modo que minhas idas domingueiras à praça tenderam a declinar.
Nada contra o som ou a cannabis, cada um na sua. Mas o fato é que eu achava ambos desagradáveis, chatos. Minha turma era mais caretona mesmo.
O som dos Beatles, Tom Jones, Antonio Carlos & Jocafi, Simon & Garfunkel, ouvidos fumando um Chanceler ou Albany faziam mais meu estilo da época. Também sempre fui meio chegado ao que era conhecido como música brega.
Não cheguei a comprar discos do Waldick Soriano ou Nelson Ned, mas na hora certa até que ouvia um Wando, Maria Alcina, Silvio Brito ou Odair José.
Tudo misturado às Big Bands, indispensáveis nos bailinhos – hoje conhecidos por baladas – que às vezes se organizavam na casa de alguém.

Nas eventuais voltas à Feira Hippie notava-se gradualmente a redução do artesanato legítimo e a invasão do industrializado variado e barato. A praça foi mudando de cara e, em consequência, de público. Os turistas nacionais e estrangeiros, que eram frequentes nos primeiros anos, foram sumindo e dando lugar aos visitantes da própria região metropolitana que passaram a fazer compras e até a comer na praça, proliferando as barracas de salgados e doces que se encontram até hoje por lá.
No meio da variada fauna, a população gay sempre esteve presente. Houve época em que passear na Praça da República num sábado à noite, por exemplo, era uma espécie de confissão gay, mesmo que não fosse. Para quem não viveu essa época é importante dizer que alguém podia perder amigos, familiares e até emprego, pelo simples fato de ter sido visto na Praça da República numa noite de sábado. Absurdo? Mas era assim mesmo, acredite.

Hoje a praça mudou muito. O prestigioso colégio Caetano de Campos, que durante décadas ocupou o imponente prédio projetado por Antonio de Paula Souza e Ramos de Azevedo, foi desalojado para dar lugar à Secretaria de Educação, numa ostensiva prova de que no Brasil, a educação propriamente dita, é menos importante do que quem a administra.
Os artistas plásticos e artesãos expõem outros tipos de produtos, a alimentação ocupa uma área que não existia nos anos 60 e 70, mas para quem viveu essa época, ainda ecoa por lá a cantora desafinada imitando a voz da Janis Joplin, ainda se sente o cheiro de misto quente junto com fumaça de um baseado e deixando um pouco a memória nos levar, quem sabe pinta até uma saudadinha do que no passado não nos agradava.