Prosaico domingo à tarde em 67

Postado em 4 de janeiro de 2020

Chovia uma chuva fina e persistente naquela tarde de domingo do comecinho de ano. Os enfeites de Natal ainda estavam em quase todos os prédios, aguardando o dia 6, quando após o Dia de Reis, para quem comemora a data, todos os adereços e ornamentos voltariam para as suas caixas, aguardando o Natal seguinte.
Não havia quase ninguém nas ruas, no caminho para o supermercado Peg Pag da Av. Rio Branco onde, a pedido de minha mãe, deveria comprar alguma coisa que seria usada no jantar. Não lembro mais o quê. 

Os poucos carros que passavam produziam um farfalhar característico dos pneus sobre o asfalto molhado, espirrando água no seu trajeto. O resto era silencio, já que os passarinhos, por não terem guarda-chuva, deveriam estar quietinhos sob marquises ou folhagens das árvores que São Paulo ainda tinha nas avenidas do centro.
Dentro do supermercado com poucos clientes, um breve passeio pelos corredores, procurando a encomenda, algumas paradas para ver produtos que não conhecia.
Perto do caixa, já com a compra na mão, o irresistível Kibamba, chocolatinho da Kibon com recheio de marshmallow pegou carona na minha conta.

Descendo de volta pela Av. Ipiranga pra olhar o movimento, ou a falta dele, passava por bares abertos, lojas e restaurantes fechados, incluindo o Parreirinha, reduto de artistas e pessoal da TV. Adiante, já perto da Av. Cásper Libero, no Hotel Normandie, o american bar parecia já preparar-se para a noite e a chegada de hóspedes que trabalhariam durante a semana na cidade.
Mais um pouco e passava diante do Atlântico Danças, claro, fechado a estas horas, e entrando já na Cásper Líbero, o Kibamba saiu do meu bolso e resolveu acompanhar o resto do trajeto sendo degustado.

A chuvinha foi diminuindo e diante do meu prédio, já quase não caia um pingo.  Subindo no elevador para o quinto andar, sacola de compra numa mão, embalagem vazia do chocolate na outra, missão cumprida.  Agora seria ver o que a família resolveria assistir na TV preto e branco com não mais do que 5 ou 6 canais, dos quais, com ajuda de Bombril na antena, dava pra ver melhor a Tupi, Record e Excelsior.
E assim terminava o primeiro domingo de 1967. Com passeio até o supermercado, chuva fina e gosto de Kibamba na boca.