O DIA QUE A GENI VENCEU O DITÃO, LOGO NA ENTRADA DO SAGUÃO.

Postado em 1 de junho de 2013

Em 1966, logo nos primeiros meses após mudarmos para o Edifício Anelhe na Av. Cásper Líbero 573, a vida no centro de São Paulo era um deslumbramento quase diário.
A Estação Rodoviária de São Paulo era muito perto e lá, eu e meu irmão caçula andamos pela primeira vez numa escada rolante. Primeiro com medo de cair, depois descendo pelo outro lado até o térreo para voltar a subir na “escada que andava sozinha”, ao som dos costumeiros chamados dos altofalantes onde o locutor anunciava:
- “Atenção senhores passageiros da Pássaro Marrom com destino a Jacareí, São José dos Campos, Taubaté e Cruzeiro, 10 horas 28 minutos, plataforma nove. Passageiros da Viação Cometa com destino a Jundiaí e Campinas, 10 horas 32 minutos, plataforma sete”.
Em seguida, numa gravação sempre igual, também de voz masculina, entrava o patrocínio:
- “As Casas Pernambucanas desejam a todos uma boa viagem”.No andar de cima, dezenas de lojinhas vendiam milhares de cacarecos e traquitanas coloridas, malas e sacolas baratas (e ruins) e alguns salgados massudos para os que não tiveram tempo de se alimentar em casa antes da viagem.

Nas imediações, vários camelôs vendiam inutilidades, cada um com seu bordão anunciador:
- ”Olha o ratinho que sobe e desce, é fácil e eficiente a ‘brincadera’, não requer prática nem tampouco habilidade, ‘quarqué’ criança brinca, ‘quarqué’ criança se ‘adiverte’”.
Às vezes, as incursões nessa região as fazíamos com outros garotos da recém-conquistada turma.
- Mário Sérgio, loiro sorridente e ágil, sempre disposto a qualquer aventura.
- Os irmãos Robson e Daton, ambos com seu cabelo a lá Beatles, com uma franja lisa que vinha até quase os olhos e as vezes atrapalhava a visão.
- Chumbo, morador de um prédio próximo, gordinho e cujo nome jamais soube.
- Gustavo, filho da Dona Geni, mulher corajosa e admirável, que criou o filho sozinha e desenvolveu forte personalidade para lidar com os preconceitos contra os preconceitos dos anos 60.
- Cacho (se pronuncia catcho), boliviano alto, magro, bom de briga mas sempre simpático e sorridente, falando português com forte sotaque hispânico.
- Buby, filho de alemães, grandalhão e desengonçado, que raramente estava com a turma porque tinha que estudar (nunca tinha visto alguém estudar tanto).

A turma crescia um pouco mais quando, nas tardes preguiçosas de sábado, ficávamos jogando bola, andando de bicicleta ou carrinho de rolimã na própria Cásper Líbero que, após as 14 horas de sábado e durante todo o domingo, virava quase uma rua de bairro. Raramente passava algum carro e o ônibus elétrico só a grandes intervalos regulares.

Um dia, dois meninos de outro prédio, vieram ao nosso Edifício Anelhe para ir à casa do Gustavo, filho da Dona Gení, que morara no 15º andar.
Ditão, o zelador e uma espécie de xerife temido pela garotada, mulato gordão, de bigodinho fino e aparado, fumador de cigarro de palha que impregnava todo o saguão de entrada, resolveu barrar os dois visitantes alegando que faziam muita bagunça e, portanto, não os deixaria subir.

Não havia interfones no prédio. Um dos integrantes da turma subiu de elevador prá avisar o Gustavo que o Ditão não tinha deixado os dois moleques subirem.
A Dona Geni ouviu e lá de dentro gritou “quero ver o Ditão barrar amigos do meu filho na minha frente”.
Nosso valoroso integrante desceu correndo prá rua, avisando toda a molecada que a Dona Gení ia descer pra brigar com o Ditão.

Quando a porta do elevador se abriu no térreo, irrompendo de dentro uma Geni mais vermelha que pimentão e com o Gustavo atrás, o saguão já tinha uma plateia de todos os garotos da rua, pronta para a torcida.
O Ditão, que estava perto da porta, assustou-se com a violência com que a porta se abriu e chegou a dizer:
- “Esses garotos não são do prédio e fazem bagunça quando…” mas um impressionante tapão no peito fez com que ele batesse as costas na parede oposta e ficasse pálido. As dezenas de chaves que trazia sempre penduradas no cinto, bateram também contra a parede fazendo um estrépito que aumentou a dramaticidade do momento.
- “Quero ver se você é homem de barrar alguém que meu filho convide pra ir à minha casa. Gritava a Dona Geni desferindo novo potente tapão de mão cheia no peito do Ditão que desta vez ergueu o braço prá se proteger, aterrorizado com o tamanho e violência da inesperada reação.
Dona Geni virou-se, abriu a porta do elevador, quase arrancando-a do lugar, e mandou os dois visitantes entrarem. Em seguida entrou o Gustavo e, antes de entrar, Dona Geni ainda lançou novo olhar para o zelador que parecia ter murchado junto à parede e disse:

- “Da próxima vez eu te quebro os dentes.”
Entrou e subiu.

A garotada não se conteve e soltou um sonoro…EEEEeeeeeeeeeeeee!!!!! saindo para a rua novamente.

O sol daquela tarde de sábado agora tinha outra luz. O prédio não tinha mais nenhum temível xerife. A garotada exultava…
E o Ditão, que sabia que podia mesmo ficar sem dentes, passou a agir com mais cordialidade e, quando entrava ou saia a Dona Geni, ele sempre se abaixava atrás da escrivaninha que lhe servia de portaria, pra pegar um lápis que caiu.

A molecada maldosa logo percebeu e adotou o aviso de gozação “Olha o lápis, olha o lápis”…

Bons tempos em que moleque malcriado era apenas o que falava alto na escadaria do prédio.

 

 

 

Fato real.