O DIA EM QUE A DITADURA INVADIU NOSSA CASA

Postado em 29 de outubro de 2013

Meu irmão Wladimir era o primeiro da família a entrar numa faculdade. A pedagogia da USP, na Cidade Universitária, que naqueles anos 60 tinha bem menos estudantes do que hoje, mas já era mal conservada. Lajotas de cimento mal colocadas no barreiro compunham o acesso da rua para os prédios e eram jocosamente chamados de “via das dúvidas” pelos jovens usuários.
Aos sábados e domingos, estudantes reunidos na faculdade ou no prédio do CRUSP tocavam violão e cantavam músicas da MPB, canções mais antigas e também paródias que ironizavam os governantes militares.

Em plena era dos festivais, Geraldo Vandré estava entre os mais lembrados, mas também Caetano Veloso, Elis Regina, Chico Buarque faziam parte das referências estudantis junto com eventuais cartazes de Che e outros que, na época, simbolizavam a liberdade.

Uma noite em 67 – Festival da Record Completo

O clima de alegria pela convivência mútua fazia da reunião mais simples daquela moçada uma festa contagiante para quem quer que os observasse. Totalmente impensável imaginar que aqueles grupos armados apenas de sonhos pudessem significar alguma ameaça ao estado brasileiro.
Eu, 5 anos mais novo que meu irmão, achava aquele cenário o mais desejável e me perguntava quando viveria algo semelhante.

Durante a semana nas ruas, os protestos que significavam tão somente passeatas com palavras de ordem e eventuais cartazes, eram reprimidos duramente pela recém criada Polícia Militar, resultado da fusão entre a antiga Força Pública e a Guarda Civil, corporação estadual composta de profissionais muito melhor preparados e que foram pouco receptivos à obrigação de passar a vergar a mesma farda do antigo oponente, tido como uma força truculenta e pouco inteligente.
Os “carinhosamente” chamados de gorilas, não poupavam potentes cassetadas que pegavam indistintamente quem alcançassem, estudante ou não.
Mas a maioria esmagadora dos estudantes era composta de idealistas e defensores da liberdade. Bem longe do que pensam ainda hoje algumas pessoas mal informadas, afirmando que estudantes e terroristas eram a mesma coisa.
O fato de alguns líderes estudantis terem passado a integrar a luta armada não autoriza generalizações. Até porque quem trilhou esse caminho foi para lutar por outra ditadura, a ditadura de esquerda.  Longe, portanto, da liberdade que se defendia nas universidades e nas ruas.

Mesmo com toda essa movimentação, nossa vida doméstica era tranquila. Meu irmão, logo no primeiro ano, foi eleito presidente do centro acadêmico da pedagogia o que aumentava o orgulho familiar. Todos trabalhando, divertindo-nos sempre que possível, acompanhando por rádio, TV e jornal as notícias que o governo permitia divulgar e pelo boca a boca as que eram censuradas.

Uma noite, o encanto adolescente acabou. Acordei pouco depois da meia noite ouvindo meu pai, minha mãe e irmãs, falando alto. Eu e o Vicente, meu irmão caçula, nos perguntamos o que acontecia e ao sair do quarto para o corredor soubemos que havia séria possibilidade de nosso irmão Wladimir ter sido preso.
Pouco antes, próximo às 11 da noite, o “seu” João, porteiro noturno do prédio, tinha subido até o quinto andar e batera à nossa porta no apartamento 52. Não havia interfone, portanto o recado tinha que ser dado pessoalmente e quem o recebeu foi minha mãe.
Meu irmão, que acabara de deitar e ainda estava acordado, veio à porta de chinelos.Um homem acompanhava o seu João e assim que meu irmão começou a falar com eles, um segundo homem surgiu saindo da escada que descia do sexto andar, diante do olhar incrédulo de minha mãe que não entendia o que eles faziam lá à aquela hora da noite.
Disseram a ele que os acompanhasse. O Wladimir perguntou se podia por sapatos ao que retrucaram que não havia necessidade, era conversa rápida.
Ao chegar à rua, foi levado para uma viatura e levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), responsável por dezenas de assassinatos patrocinados pelo governo.
Lá dentro foi posto numa cela onde também estavam o padre prior dos dominicanos, dois jornalistas, um estudante uruguaio, entre outros.
Com sua chegada todos acordaram e começaram a perguntar-lhe o que ele tinha feito. “Não fiz nada” afirmou meu irmão, que não fizera senão ser aprovado num curso superior.
“Aqui todo mundo fez alguma coisa”, insistiu o prior. “Todos temos algum envolvimento, inclusive esse uruguaio que deve ser tupamaro, mas ainda não sabemos porque ele não fala”. Diante da repetição da resposta do meu irmão, o padre fez ainda um comentário: “Grave não é ser preso, grave é não ter feito nada”.

Por volta das 8 horas da manhã ele foi conduzido ao setor de identificação e recebeu ordem de assinar uns 12 formulários, já preenchidos. Tentou ler, mas foi ameaçado: “Assina logo e não enche o saco. Ou então vai ser pior prá você”. Uma menção ao pau-de-arara* fez com que ele assinasse rapidamente tudo.
De lá, foi levado algemado por uma escadaria a outro prédio, até uma antessala onde ficou esperando por várias horas até que, já perto do meio dia entrou para ser interrogado.
O delegado era nada menos que o temível Sérgio Paranhos Fleury, um dos maiores e mais sádicos torturadores da época. Uma espécie de Torquemada do governo militar.
Com seus fulminantes olhos azuis, começou a fazer perguntas sobre as atividades do Centro Acadêmico e as do meu irmão na pedagogia. Ele respondeu que a maioria dos estudantes era composta de professoras primárias, muitas das quais comissionadas na própria Secretaria da Educação. O que faziam lá eram apostilas do curso, atividades culturais e festas. Perguntou sobre atividades de outros CAs na Cidade Universitária mas meu irmão se fez de bobo, desinformado.
Completou com mais algumas perguntas:
- Como são as suas relações com os seus vizinhos no seu prédio?
– Nos damos bem com todos, não temos nenhum problema.
– Você ou seu pai não tem inimigos no prédio?
– Não. Não haveria por quê.
– O que o seu pai fala do governo?
– Meu pai não tem atividade politica. Não fala sobre esses assuntos.
– Você não guarda material subversivo na sua casa?
– Não.
– Tem livros?
– Sim, claro. Sou estudante. Tenho muitos livros.
– Vou mandar olhar.
– Claro, podem buscar à vontade não há nada subversivo em casa.
A sessão de interrogatório não durou mais que uma hora.
Levado até a porta do prédio, já no começo da tarde o investigador desceu do carro e repetiu a pergunta do delegado. Diante da insistência do meu irmão para que ele mesmo subisse e procurasse material subversivo, advertiu:
- Não precisa, pode ir prá casa. Mas pense bem, porque se nós soubermos que há algum material subversivo haverá castigo.

Mas em casa estávamos todos sem noticia desde a noite anterior.
Com o passar das horas, já no meio da madrugada, meu pai decidiu ir a pé até o DOPS e eu o acompanhei. De nosso prédio na Av. Cásper Líbero, 573 até a sede do DOPS, na Rua Mauá nº 66 eram menos de 700 metros, percorridos no começo da madrugada por meu pai a passos largos e decididos. Eu o acompanhava quase correndo.
Ao chegarmos próximo ao prédio, a área toda estava isolada por cordas e grandes cruzetas de aço. Junto às paredes do prédio vários policiais acompanhados de cães guardavam a única entrada perceptível.
Sem qualquer parada ou hesitação meu pai passou as pernas por cima das cordas e seguiu na direção dos guardas, acompanhando por mim, já ofegante e dizendo baixinho que eles iam atirar em nós.
Foi como se não tivesse dito nada. Chegou diante de um dos policiais que já empunhava sua metralhadora em posição de tiro e, há poucos centímetros do seu rosto perguntou:
- Onde está meu filho?
Eu não sei se o gesto inusitado, louco mesmo, deixou os policiais sem saber o que fazer. Naqueles dias isso foi um gesto quase suicida. Mas nenhum deles esboçou reação embora todos olhassem para nós tendo parado de conversar.
- Aqui não entrou ninguém, senhor.
– Como posso saber se ele não está ai dentro? Foram pegá-lo em casa antes da meia noite a e até agora ele não voltou.
– Senhor, por favor, venha até aqui durante o expediente e peça informações. Mas garanto que não entrou ninguém.
Ainda numa última e absurda reclamação, meu pai soltou a frase que costumava dizer quando se referia aos longos procedimentos burocráticos de repartições públicas.
- Ou seja, terei que fazer o Via Crúcis de sempre.
Virou as costas e voltou. Entre eu e os policiais não sei quem estava mais atônito. Ele tinha se exposto à morte e no entanto estava enraivecido por não ter conseguido nenhuma informação.
Durante o dia trabalhei em minha função de office-boy até que por volta das 14 horas ligaram de casa para me avisar que o Wladimir já estava lá, vivo e inteiro, apesar de tudo.

Em nossa cultura ocidental não temos ritos de passagem formais para a idade adulta. Não temos o ritual judaico do Bar Mitzavah, nem a escarificação dos Kalapalo no Xingú ou a venda nos olhos durante toda uma noite dos Cherokees.
Mas após a angustia de saber da prisão do meu querido irmão, sem motivo, sem função, por puro exercício sádico do poder, senti que minha adolescência tinha terminado.

 

*Pau-de-arara
É uma das mais antigas formas de tortura usadas no Brasil – já existia nos tempos da escravidão. Com uma barra de ferro atravessada entre os punhos e os joelhos, o preso ficava pelado, amarrado e pendurado a cerca de 20 centímetros do chão. Nessa posição que causa dores atrozes no corpo, o preso sofria com choques, pancadas e queimaduras com cigarros