Nos Tempos da Dogma – 01

Postado em 14 de dezembro de 2021

O bar da Av. Angélica já estava fechando quando declamei as últimas estrofes de “Navio Negreiro”, de Castro Alves aos meus dois amigos e colegas, Waldir e Celso. Tínhamos saído de uma das aulas do curso noturno de técnico em design e artes do IADÊ e com alguma frequência fazíamos uma parada nesse bar, antes de voltar pra casa.  Ao final da minha empolgada exclamação, o Waldir virou-se para o Celso e disse:
- Vamos levá-lo pra Dogma?

Em poucos dias eu estava diante do Rubinho, então chefe do departamento de arte final da Dogma Propaganda, onde iniciaria como assistente de arte logo depois, naqueles idos de 1977, fazendo um bem-vindo intervalo na minha vida profissional de vendedor.
Prancheta forrada com papel paraná, réguas, esquadros, cola benzina, nanquim e estilete. Essas eram as principais ferramentas de um arte-finalista que tinha seu “batismo” comemorado pelos colegas quando cortava o dedo pela primeira vez.
- Merda, cortei o dedo!!!
- Êêêêba!! Bem-vindo ao clube. Quebrou o cabaço. – Essa era a saudação dos colegas.
Pingar um pouco de sangue sobre a prancheta era o mesmo que estourar uma garrafa de champanhe no casco de navio prestes a sair do estaleiro. Claro que toda a agência que se prezasse tinha sempre à mão uma caixinha de Band-Aid. No nosso caso, muitas! Dezenas mesmo. A Dogma tinha entre seus clientes da época a Johnson & Jonhson, que também nos facilitava usar o Modess, antiga marca de absorvente feminino, colado ao lado da prancheta pra limpar os pincéis no trabalho de montagem de artes.

Trabalhávamos ouvindo Ney Gonçalves Dias dando notícias na Jovem Pan, com seu jeitão histriônico, além do Narciso Vernizzi informando a previsão do tempo, com especial atenção nossa às quintas e sextas, quando já pensávamos no final de semana.
O Waldir e o Nelson, numa das salas de cima do sobrado da Rua Barão do Bananal, faziam parte da ‘elite’ da agência, já que trabalhavam na criação. A nós, Celso, Manoel, Rubens e eu, pobres mortais da arte final, cabia botar na pratica as maluquices que ele e seus pares criavam. Por exemplo:
Definiam uma cor de uma embalagem, sei lá se com pincel sujo de outro resto de tinta, e nós na arte final queimávamos pestanas – e litros de guache – pra descobrir como chegar naquela cor que o fdp tinha botado.
Ou então, inventavam rótulos tão rebuscados que nem fotocomposição, mil estiletes e olho de lince conseguiam ajustar como no layout.
Mas apesar das armadilhas que nos presentavam, na hora da cerveja não havia distinção. Todos ficávamos igualmente bêbados, chatos, pentelhos, palhaços, mas muito unidos.
Esposas e/ou namoradas tinham imensa paciência conosco.
Nessa agência também fui redator publicitário, quando descobri meu gosto por textos e, mais ainda, meu prazer em escrever.
Mas os textos publicitários tinham que ser sempre curtos e densos de conteúdo. Nada de longas divagações ou descrições machadianas. Talvez por isso eu tenha predileção por escrever crônicas e não contos ou, muito menos, romances.

Nos anos 70, ser publicitário era ainda ser parte da comunidade das artes. Artes plásticas, poesia, teatro, música, todas. Sermos publicitários nos aproximava desse mundo. E babávamos com as ilustrações do Frank Frazetta e ficávamos mudos diante das fotos de obras de Michelangelo, Da Vinci nos caríssimos livros que a agencia comprava para servir de referência às áreas de criação. Assim mesmo, talentos clássicos e atuais eram vasculhados por nós avidamente, na busca do belo. Filmes de arte ou comerciais de TV serviam-nos de fonte de inspiração. Felini, Antonioni, Polanski, Buñuel, disputavam nossa atenção com os comerciais do Olivetto, singles do Arquimedes Messina e personagens vividos por Edgard Gianullo (Pinho Tok), Rogério Cardoso (Variant), Ferrugem (Ortopé), além de outros tantos, incluído o que, mais adiante o Waldir criaria pra C&A e foi um dos mais famosos da história da propaganda brasileira.
Mas isso já é pra outro texto.
Por enquanto, fica o registro de que virei publicitário por causa de dois amigos malucos e de Castro Alves, ora vejam!