NOITE DE SÁBADO NA CASA DOS BUCCI

Postado em 29 de julho de 2013

Sábado a noite tem sempre clima de festa. Na minha adolescência isso acontecia do mesmo jeito, só que no meu prédio.
Nos anos 60 o Edifício Anelhe na Av. Cásper Líbero, apesar de estar em pleno centro de São Paulo, tinha um certo clima de bairro. Às vezes até de interior. Os vizinhos se cumprimentavam pelos nomes, alguns visitavam-se eventualmente e como em vários apartamentos havia meninos e meninas mais ou menos da mesma idade, as famílias conviviam um pouco mais. Nem que fosse prá uma mãe ir chamar o filho em outro andar, embora o mais comum fosse brincarmos na rua mesmo.
Foi nessa época, não lembro quem que ano exatamente, que minha irmã Maruxia (apelido familiar) começou a namorar com o Athayde, vizinho do apartamento ao lado, filho único que morava com a mãe viúva, dona Aracy Destéfani Bucci e dono de um escritório de contabilidade. Mas como boa família de origem italiana, tinham um verdadeiro batalhão de parentes morando em prédios próximos ou bairros da região. A própria dona Aracy, filha mais velha da família Destéfani, donos do antigo Hotel das Bandeiras, tinha 11 irmãos, ou seja, o Athayde tinha 11 tios e tias acrescidos dos maridos e esposas e com uma coleção de primos que para mim parecia infindável.
Com a evolução da relação entre minha irmã e ele, começamos a participar de algumas reuniões dessa família que, geralmente, ocorriam numa noite de sábado.

Desde as 16h ou 17h podíamos sentir o cheiro de deliciosos quitutes e salgados que a dona Aracy preparava com uma mão mágica e a modéstia de quem acha banal.
A partir das 19h os dois elevadores começavam a ter mais trabalho nas suas viagens entre o térreo e o quinto andar.
Aos poucos iam chegando os integrantes dessa “tribo da alegria”. Uma das irmãs da dona Aracy era casada com um sujeito que sentava num canto da sala com uma sanfona e um sorriso que incendiava a turma toda em cantorias e danças na grande sala com mobília afastada para as paredes. Outro era perito especialista em jogos de salão. Vendar algum voluntário (eu, por exemplo) e pedir que subisse numa estreita tábua apoiada em sobre duas baixas pilhas de livros. Nessa posição, com as duas mãos sobre os ombros do “mestre” este informava que com a força da mente a tábua se ergueria. Claro que vinham outros dois auxiliares e um em cada lateral da tábua, levantavam apenas alguns centímetros, mas o mestre ia abaixando-se aos poucos, o que fazia com que o panaca vendado tivesse a nítida sensação de estar prestes a bater a cabeça no teto e pedisse pra descer, provocando gargalhadas de todo mundo.

A música da sanfona inicial era substituída por discos LP que tocavam na vitrola as orquestras de Glenn Miller, Henry Mancini, Ray Conniff, Franck Pourcel, Paul Mauriat e Michel Legrand, paixões do cinéfilo Athayde Bucci Jr. que as punha em volume adequado para que as conversas rolassem sem ninguém ter que gritar.
O meu futuro cunhado, que sempre era muito reservado, até tímido, nessas reuniões soltava-se e participava de todas as rodas que se formavam. Duas ou três na sala, outro tanto na cozinha, conversas sobre política, futebol, economia, mas o que ele gostava mesmo era do grupo que estivesse contando piadas. E nisso eu tinha algum talento e uma memória boa, o que não raro me fazia centro da “rodinha do humor” por algum tempo. Fácil imaginar o que um adolescente por volta dos 14 a 16 anos sente ao ser alvo de atenção de adultos que no seu dia a dia eram circunspectos senhores de terno e gravata voltados apenas para assuntos sérios.
Os drinks eram Cuba Libre (rum com coca cola), Gin Fizz (gin, suco de limão e soda) e Hi Fi (vodca com Crush, refrigerante de laranja da época, equivalente à Fanta). Mas depois de algumas rodadas o que valia mesmo era a cerveja para os adultos e guaraná prá molecada. Mas falando de líquidos, inevitável lembrar que devorar os salgados da dona Aracy era a principal maravilha da festa. As vezes sob o olhar reprovador de alguma das minhas irmãs só porque eu estaria pegando a quadragésima sétima coxinha ou talvez o trigésimo oitavo quibe, imaginem.

A hora avançava e a molecada era chamada de volta pelas mães. Naqueles anos os adolescentes eram ainda mais ou menos obedientes aos pais e não participavam das conversas dos adultos. Para mim estava ótimo. Depois de quase esgotar meu estoque de piadas e fartar-me das delícias da dona Aracy a reunião ficava chata mesmo.
No fundo eu não sei se os adultos passavam a ter conversas sérias ou se só ficavam meio bêbados e menos divertidos. O som diminuía, as conversas iam esmaecendo e da minha cama, podia ouvir os últimos ruídos do apartamento ao lado ate pegar no sono.
Na manhã seguinte, ao acordar, as vezes me deparava com a gostosa surpresa de uma grande bandeja na mesa da cozinha, coberta com um pano branco sob o qual vários salgados e delicias da noite anterior ainda esticavam o clima de festa pela manhã de domingo.
Era comum que vizinhos trocassem gentilezas. Quando as gentilezas eram essas eu achava ótimo.
Após um banho e, às vezes, com meus irmãos mais velhos e pais ainda dormindo, eu e meu irmão Vicente descíamos pra silenciosa Cásper Líbero, preguiçosa na manhã domingueira e sentávamos na calçada pra saborear os sanduichinhos, e salgadinhos que nos enchiam a mão.
E torcíamos pra nossa irmã Maruxia casar logo com o Athayde.