FORTES EMOÇÕES JUVENIS

Postado em 28 de setembro de 2013

Numa velocidade espantosa eu entrei na curva acentuada à frente e, apesar do nervosismo, das mãos suando, consegui completar a curva sem capotar. No entanto, quem vinha atrás de mim não teve a mesma sorte.
Eu precisava me concentrar no imenso retão em declive após a curva, mas ainda foi possível ver o carro que me seguia dar uma violenta pirueta lateral, subir e cair fora da pista.

Ouvi palavrões, xingamentos, mas consegui completar a última volta em primeiro lugar, o que me dava, pela primeira vez, uma vitória sobre o habilidoso Mario Sérgio no Autorama que montávamos na grande sala do nosso apartamento.

Logo outros carrinhos do Robson, Chumbo (apelido do rechonchudo da turma) e do meu irmão Vicente chegavam à pista após minha disputa, para decidir mais um campeão que disputaria comigo numa terceira rodada.
Eu não lembro mais de quantas voltas se compunha cada rodada e nem qual foi o resultado da disputa final, já que o mais importante para mim era ganhar do sempre vencedor Mário Sérgio Marquezelli.

O sabor da vitória era logo substituído por outros desejos. Volúveis como qualquer adolescente, mudávamos de planos e vontades rapidamente e sem culpa. A única coisa fixa era nosso prazer de fazer coisas juntos. Por exemplo, ir juntos, quatro, cinco moleques, à Rua Capitão Salomão onde havia uma casa especializada em modelismo.
Lá nos deparávamos com maravilhas como pequenas árvores de arame e espuma de poliuretano, casinhas para por nas laterais das pistas e formar uma cidade, bonequinhos para dar vida ao entorno do autódromo doméstico. Quando tínhamos algum dinheiro, comprávamos acessórios para aumentar a sensação de realidade de nossas competições.
Porém, nosso principal foco eram os trechos adicionais de pista, para encompridar os percursos e, claro, os carrinhos. Alguns consistiam apenas numa carcaça plástica transparente, moldada em vacuum forming que eram mais baratos do que os carrinhos prontos, mas tinham a vantagem de que nós mesmos os pintávamos em casa e com isso, ganhávamos o prazer da autoria.
Um carro pintado e adesivado por nós mesmos era, claro, muito mais bonito que um carrinho pronto. Pelo menos para o autor, mas não raro para os amigos também.

Havia os motores “preparados”, alvo de desejo pela potência. Eu não faço a menor ideia de como alguém preparava um motor que, na verdade consistia em uma simples bobina elétrica, no entanto, acreditávamos piamente no que os experientes vendedores nos diziam. Quem sabe se um dos meus contemporâneos mais conhecedor de elétrica, ao ler isto me conta se eram mesmo mais potentes e manda uma explicação.
E os pneus então? Eram um caso à parte. Borrachas especiais, mais macias para aumentar a aderência nas curvas. Pretos eram comuns, os bons mesmo eram os cinza escuro, importados (será?).

Completávamos a visita com uma sessão de contemplação dos inúmeros adesivos minúsculos, à base de água, com símbolos da Ferrari, Audi, Porsche, Lamborghini, BMW, Maserati e outras. Pôsteres dos heróis da F1 como Jackie Stewart, Jim Clark, Graham Hill, enfeitavam uma ou outra parede e disputavam espaço com os produtos do aeromodelismo e ferromodelismo que pouco chamavam nossa atenção.

Ao sair da loja todos nós nos sentíamos um pouco pilotos. Os ares matinais de sábado ganhavam até um cheiro de autódromo. Não fazia mal que o cheio viesse dos ônibus mal regulados do Largo Paissandu, por onde passávamos na volta da Capitão Salomão. O importante era que o cheiro vinha de motores, portanto, emprestavam um toque de realidade a nossa fantasiosa Interlagos, e cruzávamos a Avenida Cásper Libero chegando ao nosso Edifício Anelhe como quem se dirige ao Pódio. No próximo final de semana estaríamos em Silverstone, na Inglaterra, ou em Spa-Francorchamps, na Bélgica.
Enquanto isso, de segunda-feira a sexta-feira eu pilotaria minha pastinha de office boy durante o dia e enfrentaria as provas do estudo noturno, onde “derrapar” poderia custar o ano.