Férias em Mirassol nos anos 60

Postado em 24 de fevereiro de 2014

Antes de minha irmã Maruxia conhecer o seu futuro marido, namorou durante algum tempo um rapaz que morava no apartamento em frente ao nosso, na Av. Cásper Líbero, cuja proprietária e sua filha tinham transformado a grande sala num salão de beleza que atendia freguesas da região e também alugava um quarto para dois rapazes. Um deles, o Gilberto, original da cidade de Mirassol.
Eu não lembro mais em que ele trabalhava. Mas o fato é que, numas férias escolares, minha irmã, meu irmão Vicente e eu fomos passar nessa quente cidade ao lado de São José do Rio Preto uns 15 ou 20 dias com a família Pessoa – da qual o Gilberto era um dos filhos. Não imaginava então que mais de 40 anos depois eu voltaria a essa cidade na condição de consultor de empresas.

Minha irmã ficou apenas 3 ou 4 dias, pois trabalhava no Banco Aliança do Rio de Janeiro e não podia ficar mais tempo. O Gilberto também trabalhava e voltou com minha irmã, de modo que nós dois ficamos com o pai, a mãe e a irmã do Gilberto numa casa muito simples, mas aconchegante, e sentindo-nos recebidos como se fôssemos da família.
Eu e o Vicente, logo nos primeiros dias, fomos levados por nossos novos amigos, meninos mirassolenses de nossa idade, ao Clube Tupan, onde passamos tardes deliciosas na piscina e demais dependências, ao som das músicas da época que tocavam no alto-falante da grande área externa do clube. Roberto Carlos e todos os cantores da Jovem Guarda se revezavam com algumas duplas caipiras, dando às nossas tardes um clima marcante e inesquecível.Tupan Clube Mirassol
Tomar sorvete quase todo dia, final da tarde ir à praça onde conhecemos o “footing” que ainda existia nas cidades do interior.
Coisas que para nós, meninos da capital (como se dizia na época) eram engraçadas e bonitas ao mesmo tempo. Engraçado porque adolescente acha graça em qualquer coisa que seja nova e diferente. Bonito porque era bonito mesmo.
O tal “footing” consistia em um passeio aos sábados e domingos à noitinha, quando os rapazes andavam em pequenos grupos dando uma longa e vagarosa volta à praça. No sentido contrário e um pouco mais para dentro da praça andavam pequenos grupos de moças, de modo que todos os rapazes em algum momento cruzavam com todas as moças, quando se trocavam olhares, cumprimentos, um ou outro comentário elogioso e eventuais paradas – sempre breves – em que dois ou três rapazes conversavam com um grupo de moças. Às vezes poderia ser até um só rapaz, mas nunca uma só moça. Qualquer rapaz poderia falar com uma moça na praça, mas sempre na companhia de suas amigas, do contrário ela ficaria “falada”.
Num desses finais de semana uma casa estava sendo inaugurada na mesma rua onde morava a família Pessoa e mandaram convidar os “meninos de São Paulo”.
Lá fomos o Vicente e eu por volta das 11 horas da manhã, onde pela primeira vez experimentamos pinga com Coca-Cola, que era o que todos estavam tomando. Mais tarde seria servido um almoço informal, pratos no colo, etc. Mas muito aperitivo antes.
Uma deliciosa varanda, sentados em cadeiras de armação de arame preto e trabalhadas com tiras plásticas coloridas, degustando sanduiches de carne mais pinga com Coca-cola, salgadinhos variados e mais pinga com Coca-cola. Não almoçamos.Cadeira de ferro com tiras plásticas 02
Em algum momento em que fomos levantar das cadeiras na varanda, ambos despencamos como duas jacas maduras no chão. Três dias de cama vomitando as tripas e sentindo o cérebro soar como um badalo dentro do crâneo foram nossa forte lembrança dessa inauguração.
Mas outras coisas deixariam lembranças bem melhores. O pai do Gilberto vivia de fazer e vender doce de leite. Ele tinha um pequeno sítio onde recebia o leite produzido por um pecuarista da cidade e, junto com a esposa – e não lembro se mais algum auxiliar – fervia-o em um enorme tacho sobre fogo de lenha, acrescentando açúcar, mexendo, mexendo, num trabalho exaustivo e longo.
Depois colocava o doce em altos recipientes de alumínio, acomodados em uma carroça puxada por um simpático cavalo, e saía pela cidade vendendo a iguaria.
Cada morador trazia o seu pote ou frasco e ele enchia, vendendo por peso.
Fácil imaginar que o Vicente e eu nos fartamos de comer doce de leite. Até que um dia o pai do Gilberto nos apresentou ao tal dono das vacas leiteiras, que nos ofereceu um passeio à fazenda para presenciar a ordenha e provar leite recém-tirado.
No dia marcado fomos acordados pela mãe do Gilberto às 4 horas da manhã!!! Um absurdo prá dois moleques paulistanos. Entramos na caminhonete do fazendeiro ainda dormindo, mas após alguns quilômetros e muito sacolejo nos vimos envoltos por uma manada bovina na entrada da fazenda, o que fez com que eu exclamasse:
- Nossa, parece um mar de chifres!!
Isso arrancou uma gargalhada do fazendeiro que logo adiante estacionou, já com os primeiros raios da manhã tingindo o céu de um dourado e fazendo brilhar o orvalho do capim que pisávamos em direção aos estábulos.
Em poucos minutos estávamos munidos de uma caneca de alumínio cada um e um cone feito de papel de pão, cheio de açúcar.
A instrução era por um pouco de açúcar na caneca, entregá-la ao peão que ordenhava a vaca e com o próprio jato do leite já estaria adoçado sem precisar mexer.
Nem leite em pó, nosso antigo conhecido, tinha um sabor tão marcante e delicioso quanto o que estávamos tomando.
Orgulhoso de nosso deleite, o fazendeiro nos fez experimentar o leite de várias vacas, cada uma com seu sabor específico, segundo ele.
Mimosa, Rainha, Dengosa, Serena, Mocinha, Cheirosa, Neblina, Marquesa, Mulata…
Ficamos impressionados com a memória do fazendeiro e dos peões. Todas tinham nome e eles chamavam cada uma pelo seu nome. Eram muitas. Quantas? Sei lá. Você acha que adolescente encantado com a novidade vai fazer conta ou mesmo perguntar quantas eram? Era um mar de chifres e pronto.
Muitas canecas de leite, muitas delícias e depois… mais dois dias de cama, desta vez com fortes diarreias, pra risada geral da família Pessoa com a falta de jeito dos meninos da capital.
Ao voltar prá São Paulo, deixávamos em Mirassol a lembrança de lindas e meigas meninas que nunca chegaríamos a rever – muito menos namorar – as risadas com os meninos mirassolenses e seu humor ácido e debochado na beira da piscina, o carinho da família Pessoa, o sabor do doce de leite, mas também de uma bebedeira e de um surto de diarreia, que nunca tiraram a beleza e a saudade desse pedaço de nossa adolescência.