FAZER ESPETÁCULOS ERA UM DELICIOSO PASSATEMPO

Postado em 17 de dezembro de 2013

No Curso de Madureza José Bonifácio conheci o Synésio e o Tadeu. Trabalhar e estudar eram duas atividades difíceis de conciliar, de modo que durante algum tempo a primeira tornou-se exclusiva.
Mais adiante, para recuperar o tempo perdido o tipo de curso que depois passou a chamar-se supletivo foi a solução.
Nessa época, nem o autorama nem a bicicleta faziam mais parte dos meus finais de semana. A participação apaixonante em um grupo de teatro infantil tomava cerca de 50% do meu tempo de lazer. A outra metade era dedicada a uma coisa chamada SYTA Produções fundada, é claro por Synésio e Tadeu, mas que logo passou a agregar um grupo de adolescentes sedentos por espetáculos.
Não assistir. Mas fazer seus próprios espetáculos. Digo “coisa” em vez de empresa porque nos anos 60 / 70 o hábito era criar negócios e, se dessem certo, aí sim formaliza-los (às vezes). Criada por adolescentes, então, ninguém tinha a preocupação burocrática para formalizações.

Capitaneados pelo mais visionário da turma, realizamos coisas que hoje seriam quase impossíveis de serem conquistadas por meninos entre 15 a 18 anos.
O Synésio foi o maior cara-de-pau que já conheci em toda a vida. Enfiava na cabeça que falaria com presidente dos Diários Associados, dono da TV Tupi, 2ª maior audiência do Brasil, e falava mesmo.
Achava que tinha que convidar um figurão da TV Record, rainha absoluta do IBOPE, e trazia integrantes do elenco para entrevistas ou participação como jurados nos shows que promovíamos.
Um dia, véspera de um show de música estudantil que ocorreria no auditório do Colégio São Bento, falharam alguns equipamentos.O Synésio teve uma brilhante ideia:
- Vamos até a Cinótica– forte concorrente da Fotóptica na época – pedir equipamentos emprestados.
Engraçado como adolescente não mede limites. Fomos eu, o Synésio e o Tadeu à Rua Conselheiro Crispiniano, lateral direita do prédio do Mappin, e o próprio dono da Cinótica nos recebeu no primeiro andar da loja. Explicado o problema e com a promessa de fazer e colocar cartazes com no nome Cinótica espalhados pelo auditório, levamos emprestado todos os equipamentos solicitados em um fusca.
Sem papel assinado, sem ninguém ter preenchido um único formulário ou apresentado qualquer documento de identidade. Só o combinado de devolver logo após o show.
Fizemos o show no Colégio São Bento, os cartazes foram afixados, no dia seguinte tudo estava na loja da Cinótica novamente.

Parece mentira, não é? Eu sei. Mas assim era. Chefiados pelo Synésio, “Caradura Mor” e num tempo em que a palavra empenhada tinha valor. Pelo menos mais do que hoje, sem saudosismos. Apenas constatação.

A SYTA Produções aos poucos foi criando corpo e formalizando-se. Promoveu o primeiro festival de música dos bancários, começando no pequeno auditório que a entidade tinha num prédio da Rua São Bento e indo depois para teatros da Prefeitura.
Festivais de música de estudantes reunindo vários colégios começaram a ser realizados também no Teatro João Caetano, Colégio Sion, Colégio Claretiano e outros, além de shows que apresentavam números musicais, entrevistas e momentos do que hoje é conhecido por stand up, a cargo do Synésio, que se inspirava no precursor desse tipo de humor no Brasil: Zé Vasconcelos.

Para nós isso era mais uma curtição do que atividade profissional. Muito menos fonte de renda. O único que auferia algum resultado era o Synésio. Entretanto após pagas todas as contas, cachês, taxas licenças, alvarás e a tradicional cerveja que coroava todos os finais de espetáculos, dificilmente sobrava alguma coisa. Não raro, faltava.
Mas uma turma de moleques entre 15 a 18 anos, reunidos no Choppão, no bairro de Perdizes (acho que era esse o nome da casa), sempre arranja um jeito de se divertir, mesmo com pouco dinheiro. A nós juntavam-se as meninas da turma, Suzete, Tania, Neuza, Fernanda e às vezes a Vânia, filha de pianista. Ir embora pra casa às altas horas da madrugada e sem ônibus era uma odisseia. Quase ninguém tinha carro, então quem tinha o azar de ter, virava motorista. Num Opala cabiam pelo menos 7 passageiros, incluindo o colo dos que estivessem no banco de trás. Claro que nessa hora ninguém era cavalheiro e os meninos corriam prá sentar primeiro.

O Tadeu era o faz tudo. Contrarregra, bilheteiro, marceneiro, sonoplasta, o que precisasse. O Márcio era o mais frequente na bilheteria, mas também se desdobrava em iluminação e assistente de produção. O Moura cuidava do áudio e fazia gravações. Sempre com seu jeitão meio quieto.
Eu alternava minhas participações como cenógrafo, escada* do Synésio e encarregado de segurança. Isto porque eu tinha amizade com alguns integrantes da antiga Guarda Civil e no Palácio da Polícia Militar, no bairro do Bom Retiro e era recebido sem dificuldade por oficiais de alta patente. Não que houvesse necessidade premente de segurança nos shows, mas nos festivais a presença de dois ou três PMs ajudava muito a manter a galera no limite do comportamento civilizado.
Lembro que num show no Colégio São Bento acabei arranjando quase mais PMs do que público. Talvez fruto do meu entusiasmo, e um pouquinho de exagero, ao contar a um Major a magnitude do espetáculo.
Paulo Lacerda e Luiz Manaia compunham uma dupla violonística arrasadora. Sucesso e palmas entusiasmadas a cada apresentação. O Monfá, mais alto que todos, corpulento, exemplo de elegância e charme que todos tentávamos copiar, respondia pela área comercial, fazia dublagens de Frank Sinatra e cumpria outras tarefas que já não lembro. Mas tenho vivo na memória um show em que ele apresentava um número no palco, do qual saia correndo ao final. Para mostrar essa “fuga” surgiu a ideia de filma-lo, na rua, correndo. Essa cena seria exibida logo após sua saída do palco.
Você conhece algum adolescente que não seja apaixonado por uma grande sacanagem?
Pois é. Sob pretexto de que a cena não estava legal ou que as tomadas tinham falhado, a turma fez o Monfá correr muito mais do que seria necessário. Claro que quando ele descobriu sobraram palavrões e “títulos” para todos nós, nossas mães, avós, bisavós, etc.

Ocorrências absurdas e cômicas se misturavam a situações dramáticas o tempo todo, fazendo com que fazer shows e promover festivais e entrevistas fosse fascinantemente imprevisível. Entre as non sense está uma passagem em que a abertura de um espetáculo era um belíssimo solo de piano com Sérgio Sá.
Todos nervosos como sempre antes do início, gente se atropelando nos bastidores, camarins cheios de fumaça de cigarro, coxias lotadas, alguém leva o pianista, que é cego, até o banquinho do piano.
Sentindo alguém passar perto, o pianista pergunta:
- Que hora eu começo?
E o Synésio, que era quem cruzava o palco no momento, sem pensar, responde:
- Acendeu a luz, manda pau!!!!

O Tadeu foi “autor” de duas trapalhadas no Colégio Sion que viraram parte da história da SYTA Produções.
A primeira foi durante um dos primeiros espetáculos realizados, onde o Synésio dublaria o comediante Zé Vasconcelos. Disco na vitrola, música inicial, começa o Zé Vasconcelos a contar seus casos e piadas e, no palco, o Synésio dublando. Por distração, e sem ouvir bem de dentro da coxia, o Tadeu resolve tirar o disco e o Synésio ficou com cara de “mariquinha cadê o leite”, no meio do número. Até hoje não sabemos se o público riu mais das piadas ou da gafe.
A segunda foi com equipamentos de som, que eram caríssimos naquele tempo, de modo que o mesmo amplificador que servia o palco, também servia a capela do colégio. A mudança era feita apenas por uma chave “esquerda-direita”, localizada no topo da então enorme mesa de som cheia de válvulas.
A música de abertura dos espetáculos da SYTA era o comecinho da famosa Holiday For Strings gravada no LP “Metais em Brasa”, de Henry Jerome, e usada também pelo Silvio Santos em um dos seus quadros de prêmios na TV.

Se possível, ouça apenas um trecho inicial da música antes de prosseguir a leitura.


Pois bem, num lindo sábado à noite, ensaio geral para um show no teatro, casamento na capela. Colocado o disco, Tadeu aguardava o sinal do Márcio, contrarregra, para acionar o play assim que se abrissem as cortinas. Dado o sinal, por motivos que a lógica desconhece, Tadeu apertou o play e acionou a chave superior, tocando Holiday For Strings logo na entrada da noiva.
Em poucos segundos, enquanto o Synésio olhava para os bastidores questionando por gestos o motivo de não haver música alguma, uma freira esbaforida voando como Batman irrompia teatro adentro gesticulando nervosamente e pedindo para desligar o som.

Entre os momentos dramáticos está um dos mais lembrados até hoje por todos nós, quando, no meio de um espetáculo, a pretexto não sei do quê, o censor da polícia federal entrou aos bastidores para dar voz de prisão ao Synésio e mais um ou dois de nós. Por sorte, um dos jurados era ninguém menos que Manoel de Nóbrega, protagonista do humorístico “Praça da Alegria” na TV Record e sócio do Silvio Santos.
Figura respeitada e famosa, ele se interpôs entre nós e o censor e afirmou em tom duro:
- Ninguém aqui vai prender estes meninos. O senhor, por favor, se retire imediatamente, do contrario falarei com seus superiores ainda nesta noite.
Prosseguir até o final do show foi um dos maiores desafios para a turma. Todos encharcados de suor pela tensão do susto que tomamos, embora aliviados, levamos um bom tempo para parar de tremer.
Se você nasceu após a segunda metade dos anos 60, certamente só conheceu o terror da ditadura através de matérias jornalísticas ou contadas por terceiros. Mas era real, acredite.
Houve vários outros episódios, mas não cabem neste texto e nem foram tão cheios de sorte. Mas desse tempo ficaram três coisas realmente preciosas:

A primeira, certamente é o conjunto de lembranças. Éramos os donos do mundo. Poucas coisas dão uma sensação tão prazerosa como sentir-se famoso. Fama num círculo pequeno, restrito é verdade, mas para nós isso era o mundo.

A segunda é constituída pelo aprendizado de vida que essas experiências traziam. Apresentar-se em palcos, não ter medo de tentar falar com diretores de TV, donos de empresas, comandantes de quarteis, prefeitos e até governador, fortaleceu a autoestima de quem tentou, o que certamente contribuiu para, na vida adulta, defender opiniões e pontos de vista de modo mais assertivo.

A terceira e maior das três é a amizade, que preservou as relações entre alguns de nós. Na idade adulta aos poucos fomos nos reunindo e já faz mais de 30 anos que no dia 24 de Dezembro almoçamos juntos. Nem todos vão todos os anos, mas a tradição é mantida.
Hoje, o Synésio é palestrante, radialista e cerimonialista, o Tadeu, depois de trabalhar em vários cargos burocráticos resolveu assumir seu talento culinário – e vive disso para sorte de quem prova seus pratos -, o Paulo Lacerda aposentou-se na carreira de Procurador do Estado e até hoje mantém uma camerata violonística, o Luiz Manaia é professor de língua portuguesa, o Moura é psiquiatra e o Monfá, após longa carreira em bancos, virou especialista em planos e seguros saúde.
E eu, empurrado pela saudade e estimulado por irmãos, esposa e amigos, entre outras atividades, virei escrevinhador prá botar em texto um pouco das peripécias juvenis, iguais a milhões de outras, mas especiais por terem sido as que eu vivi.

*No teatro e televisão o termo “escada” designa o ator que contracena com o humorista principal para que suas piadas possam ser adequadamente apresentadas.