ENTRE O BANCO E O TEATRO.

Postado em 22 de dezembro de 2013

Chovia muito naquele começo de tarde, quando eu saia do Banco Frances e Italiano pela porta dos fundos que dava para a Rua XV de Novembro, destinada a funcionários.
Confraternização às 11 horas da manhã de uma sexta-feira, troca de presentes de amigo secreto seguida de salgadinhos, mini sanduíches, refrigerantes, cervejas e uísque London Tower, do qual eu tomei várias doses.

Apesar do calor típico de dezembro e do sol brilhando entre nuvens, a chuva caia forte, levantando do chão um cheiro de asfalto e calçamentos molhados. No meio dos prédios, impossível saber onde estaria o arco-íris. O clima de festa me estimulou a seguir meu caminho pra casa debaixo da chuva, pelas ruas já desertas do centro velho. Sensação deliciosa e inesquecível de estar encharcado de chuva e felicidade. Tá bom, tá bom… por dentro estava meio encharcadinho de uísque também, é verdade. Mas festa é festa, não?

Fazia um ano e pouco que eu tinha mudado de emprego, deixando a função de office-boy na tal financeira da Rua Cons. Crispiniano, para trabalhar na Investa, financeira do Sudameris (nome fantasia do banco), como arquivista. Não era lá uma coisa muito emocionante de se fazer, mas ganhava melhor. Ao fundo do salão da Investa, no primeiro andar do prédio da Rua Boa Vista, havia uma pequena sala onde funcionava a central de telex do banco. Uma espécie de internet dos anos 60 e 70, mas só para textos.
Dois enormes equipamentos, semelhantes a máquinas de escrever estufadas, transmitiam e recebiam ordens de pagamento e transações bancárias das agencias do mundo inteiro.
Um italiano responsável pelo setor de telex, de nome Giovanni, que passava sempre pelo salão para ir e voltar às demais dependências do banco, por algum motivo achou que eu poderia ser um bom assistente e pediu minha transferência da financeira para o seu setor, onde aprendi a operar telex. Ao começar nesse setor, descobri que o Giovanni era o chefe nomeado pela direção do banco, mas tinha que disputar o tempo todo com o ex-chefe, um funcionário antiquíssimo, filho de alemães, de nome Ghuther, que não podia ser mandado embora porque tinha sido contratado sob uma legislação antiga e demiti-lo custaria uma fortuna. Homem pálido, magro e alto, se divertia em dar ordens a mim e o outro operador de telex, toda vez que o Giovanni saia da sala. As ordens eram sempre contrárias às orientações do italiano e quando este descobria e ficava bravo, o alemão ria, fazendo um som semelhante à risada do Mutley, cachorro danado do desenho “Corrida Maulca”.
Naquele final de ano eu comemorava as festas como bancário e, mais especificamente, como operador de telex do setor de comunicação e integração de um banco, um mundo totalmente novo para mim.

Muitos colegas, como eu, entre os 17 e 22 anos, fluentes em pelo menos uma segunda língua, trabalhavam em vários setores do banco, mas no salão de café, no terceiro andar, fomos espontaneamente formando um grupo de jovens amantes de teatro, música clássica, pintura e artes em geral. Não lembro mais do nome deles, mas havia um rapazinho de uns 20 anos, branco como um copo de leite, miudinho, de gestual levemente afeminado e elétrico, dono de um humor fino e irônico que em pouco tempo virou centro da turma. Falante de 5 idiomas, brincava de conversar ora em italiano ou espanhol, ora em francês ou inglês com todos nós. Não me pergunte como, mas todos acabávamos entendendo e cada um respondia no idioma que dominava. Alguns finais de semana em que eu não estava com a turma da SYTA Produções ou não havia ensaio do grupo de teatro infantil, saíamos juntos para ir ao cine Bijou, num domingo à tarde ou simplesmente sentar numa lanchonete para devorar alguns cheeseburgers. Era o tempo das lanchonetes cantadas pela Gal Costa em “Baby”, de Caetano Veloso, e a precursora delas no Brasil era o Jack in the Box.

Um deles, o único de quem lembro o nome, era o Djalma, que fazia teatro amador num grupo do Sesc da Rua do Carmo, perto da antiga Praça Clóvis Bevilaqua. Ele me acompanhou em alguns ensaios da “Companhia Teatro de Hoje” de teatro infantil, cujos sócios eram o Wilson Ribaldo e a Teresa Cuoco, prima do Francisco famoso. A direção era feita pelo Ribaldo e eu atuava com a Teresa Cuoco, Paolino Rafanti, que se dedica ao teatro até hoje, e vários outros. Meus papeis constituíam um verdadeiro zoológico.
Na peça “Pinóquio” eu fazia o papel de Fígaro, o gato de quem o Grilo Falante sempre tinha medo. Na peça “O Pirata” eu fazia o papel de papagaio do pirata e o colocava em situações terríveis porque repetia xingamentos dele, mas justo na hora em que o alvo dos xingamentos estava presente. A molecadinha morria de rir. Claro que os xingamentos nunca eram palavrões. Na peça “Pluft o fantasminha” não lembro mais qual era o bicho ou se era alguma alma penada.

O maior prazer nessa atividade era receber um monte de crianças nos camarins dos teatros Paulo Eiró, João Caetano, Artur Azevedo, Leopodo Fróes e outros. Algumas eram adoráveis, outras eram pestinhas que chegavam a chutar a canela de algum vilão (ainda bem que esse papel eu nunca fiz), mas sempre tínhamos a clara percepção de que nossas peças proporcionavam algum aprendizado vivencial para esse público mirim. No entanto, meu colega do banco, Djalma, insistiu para que eu conhecesse o grupo dele, no Sesc. Faziam teatro amador adulto e estavam ensaiando uma peça de Gil Vicente; O Auto da Barca do Inferno, da trilogia das barcas. Achei que valia a pena e comecei a assistir alguns ensaios deles, até que o diretor José Luiz Sconi, me convidou para atuar também.
Nesta véspera de Natal, saindo do banco debaixo da chuva, apesar da ditadura, da dívida externa brasileira, dos desaparecimentos de estudantes inocentes, da inflação que aumentava constantemente, etc., minha sensação de alegria era sentir que muitas coisas novas estavam acontecendo em minha vida.
Ao chegar em casa encharcado às 15h, o cheiro do pinheiro natural que meu pai e irmãos enfeitavam na sala, evaporaram os últimos resquícios do uísque. Agora eu só estava bêbado de felicidade.