E durante a ditadura? Tinha corrupção?

Postado em 3 de dezembro de 2016

Naquele final de tarde de novembro de 1972, sexta-feira, eu saia de mais um dia de trabalho na distribuidora de cimento OCG, no prédio da Rua Boa Vista, encontrando um entardecer abafado após pesada chuva.
Da rua vinha o cheiro do asfalto molhado, ainda quente do dia de verão e o som das rodas dos carros e ônibus espalhando a fina camada de água que ainda persistia sobre a movimentada via.

O país vivia o milagre econômico sob a mão de ferro do presidente Emílio Garrastazu Médici, o mais sanguinário do período da ditadura, e com a economia comandada pelo superministro Antônio Delfin Neto que concentrava grande poder nessa área. Chamaram de milagre econômico o período de iniciado em 1968 que promoveu forte desenvolvimento, terminando com o incrível índice de 14% de aumento do PIB ao final de 1973, mas que acabaria nos anos seguintes se revelando desastroso pelo aumento da concentração de renda e aprofundamento das desigualdades sociais, além de ter sido a semente da hiperinflação que viria anos mais tarde.

Dizem que nessa época não havia a corrupção que vivemos hoje no Brasil. Nada mais falso. A corrupção era a mesma senão, talvez maior. Entretanto era impossível divulga-la já que só tinha acesso a essas ‘oportunidades’ os detentores de poder. Denunciar um deles poderia significar prisão sob acusação de subversão, tortura e até sumário desaparecimento. Qualquer um que se indispusesse contra os governantes ou o regime era logo taxado de subversivo.

Qualquer grande empresa que quisesse funcionar sem aborrecimento nomeava um general para presidi-la. Empresas de porte médio tinham coronéis ou majores no seu conselho. Todos eles, claro, remunerados e com cadeira cativa nos seus cargos. Ou seja, o que hoje chamaríamos de propina compulsória cobrada por autoridades, na época era contratação de gestores para o board das empresas. Militares sem qualquer familiaridade com o ramo da empresa ou mesmo sem a menor noção de administração de um botequim, ganharam importantes cargos e gordos salários, sem desfazer-se de suas carreiras na caserna.

Além disso, quem ostentava uma farda tinha acesso imediato e gratuito sempre que quisesse a locais públicos e até privados, bastando para isso impor-se. Teatros, bufes de festas de casamento, estádios, parques, qualquer lugar. Quem tinha coragem de negar acesso a um fardado? Quase ninguém. Vivíamos os anos de chumbo.

Mas neste final de sexta-feira nada disso importava. Eu cruzava o Largo de São Bento enchendo meu cachimbo e dando gostosas baforadas durante uma caminhada de volta pra casa que, aos 20 anos de idade e numa véspera de final de semana, tinha mais jeito de passeio do que percurso obrigatório. Andava pelo Viaduto Santa Efigênia, apreciando toda a vista para o congestionado Vale do Anhangabaú nesse momento do dia, degustando o fumo preparado com cuidado nas horas de folga, com conhaque, casca de maçã e outras invenções experimentais.

O sentimento era de satisfação por mais uma semana de trabalho concluída e pela proximidade de um sábado e domingo que seriam aproveitados em prazerosas conversas de bar com amigos ou sessões de cinema, se estivessem exibindo algo que valesse a pena ir ver. Namorada? Tinha também sim, embora nem sempre fosse a parte mais importante do final de semana.

Descendo pela Av. Cásper Líbero em pleno rush paulistano, cruzava eventualmente com conhecidos que trabalhavam em prédios da região, até chegar ao Edifício Anelhe, no número 573 da avenida.

Seis e meia da tarde, um banho, troca de roupa e nova caminhada, desta vez subindo a Rua Aurora, cruzando a Praça da República e percorrendo a Marquês de Itu chegava ao bairro de Higienópolis onde os amigos esperavam para, de lá iniciar nosso semanal percurso por botecos e lanchonetes habituais onde em acaloradas e filosóficas discussões mudaríamos o mundo, dormiríamos tarde e acordaríamos com dor de cabeça, curada com as sopas e cuidados de nossas pacientes mães.

Segunda-feira estava sempre muito longe.