BRONCA DE MÃE DOÍA. ESTILINGADA DE MAMONA, NÃO!

Postado em 30 de março de 2013

No começo dos anos 60 eu ainda brincava na rua, construía carrinho de rolemã, empinava papagaio (pipa, capucheta, pandorga, quadrado, etc.) e fazia guerra com estilingue com semente de mamona.
Depois da escola matinal dos padres salesianos e a lição de casa feita após o almoço, ganhávamos a rua.
A molecada da rua de baixo, que beirava a linha do trenzinho da Cantareira, contra a molecada das ruas de cima: Andrade Figueira e Wilson Dupont.
Tomar uma estilingada com as bolinhas verdes e espinhudas da mamona doía pra caramba e deixava vergões vermelhos, mas todo mundo ria e o atingido não perdia tempo em catar outra semente no chão ou no bolso da calça curta, e tentar acertar o oponente.

Éramos todos rápidos, ágeis, só com boa pontaria ou muita sorte pra acertar o “inimigo”.
A única preocupação era quando a estilingada pegava na roupa porque, embora doesse menos, deixava uma mancha verde, difícil de tirar com os sabões da época.
Aí a bronca das mães sim era temida por todos. No nosso caso, às vezes era bronca da minha irmã mais velha, embora menos severa, também preocupava.
Se a bronca viesse com o castigo de não deixar sair pra brincar no dia seguinte, doía bem mais que a castimbada da mamona.

Quando a batalha acabava ia todo mundo para o campinho da Rua Paderewsky que ainda não tinha quase casas, e jogávamos bola ou empinávamos pipa. O por do sol do morro onde ficava o campinho era de uma beleza mágica. O cheiro do mato úmido do entardecer nos dias de maio e junho emprestava um clima quase sagrado. Céu tinto de tons avermelhados, aromas do capim misturados com os temperos dos jantares que começavam a ser preparados naquela hora, ao longe, baixinho, o som da Ave Maria que todo mundo ouvia no rádio por volta das 6 da tarde, transformavam o campinho num templo onde celebrávamos nossa meninice. Cada um de nós, ao mesmo tempo, sacerdote e fiel. Cessava a gritaria e a molecada ficava inconscientemente mais serena, quase solene.
O inconfundível chamado distante das mães encerrava a celebração e o dia. A noite era jantar, fazer algum final de lição incompleta, ouvir rádio ou, às vezes, assistir “televizinho” já que nem todos tinham o fascinante aparelho.

Com o tempo, casas chiques – ao menos para os padrões do bairro – foram sendo construídas na Rua Paderewsky e nosso campinho desapareceu. Empinar pipa ou jogar bola ficou mais difícil. Mas sobrava descer a ladeira da Andrade Figueira nos carrinhos de rolemã ou fazer as guerras de estilingadas de mamona.

Um de nós passou a trabalhar de office boy na cidade, outro foi ajudar o pai numa loja, minha família mudou para a Cásper Líbero, no centro. Acabou a turma do bairro de Santa Terezinha e a primeira parte da infância.
Mas novas aventuras nos aguardavam no deslumbrante centro de São Paulo. Isso já fica prá outro dia…

André Ganzelevitch