BRASIL TRICAMPEÃO E A FILHA DO RELOJOEIRO

Postado em 31 de dezembro de 2013

“Noventa milhões em ação, prá frente Brasil, do meu coração. Todos juntos vamos, prá frente Brasil, salve a seleção. De repente é aquela corrente prá frente, parece que todo Brasil deu a mão. Todos ligados na mesma emoção. Tudo é um só coração, todos juntos vamos, prá frente Brasil, Brasil, salve a seleção”.

Pois é. Em 1970, ano do tricampeonato da seleção brasileira, o país tinha apenas 90 milhões de habitantes – menos da metade do que temos hoje – e vivíamos em plena ditadura, nesse momento comandada pelo mais duro dos generais-presidentes, Emilio Garrastazu Médici.
O clima geral durante os jogos do Brasil era de grande envolvimento e torcida, não só por ser a primeira Copa do Mundo transmitida a cores – para quem tinha dinheiro para comprar um aparelho destes – e por ser nossa seleção, mas talvez porque fosse um raro momento de esquecimento da crueza política em que o país estava mergulhado. Lembro que um dos jogos caiu numa tarde em que eu tinha que ir até a casa de um colega do teatro e saí do prédio da Av. Cásper Líbero, subi quase toda a Av. Ipiranga vendo apenas um ou outro carro passar e entrei na Av. São Luiz totalmente deserta em toda a sua extensão. Nem me lembro mais em que rua da Bela Vista o colega morava. O que ficou gravado na memória foi a cidade erma (bonito esse termo, gostei), parecendo uma cidade fantasma.

Nessa época, através do Donaldo, um colega do banco, eu tinha conhecido a Marta e o Daniel, dois jovens irmãos, filhos de um relojoeiro que morava numa travessa da Rua da Cantareira e de uma simpática senhora filha de espanhóis, que teve imediata simpatia por mim, ao saber que eu era espanhol de nascença. O irmão dela, tio dos meus novos amigos, era dono de um agradável sítio em Atibaia, onde também havia um alambique de produção artesanal de cachaça.
Para lá fomos de ônibus num final de semana o Donaldo, eu, o Daniel e a tímida e pouco falante Marta. Uma deliciosa casa como as das fazendas de novela, simples, mas grande e aconchegante, onde nós, os três rapazes, nos acomodamos num quarto, a Marta com a prima em outro e o casal proprietário no quarto principal. Mas se bem me lembro, havia uns 5 ou 6 quartos.
O sítio todo era montanhoso, muito arborizado e o cheiro da garapa invadia tudo. Claro que logo na manhã de sábado acordamos cedo, chamados pelo tio que queria nos mostrar a propriedade. Banho, café da manhã delicioso (no campo tudo fica mais gostoso) e saímos a andar, com a relva ainda meio molhada de orvalho e uma suave neblina que ficava mais densa na parte baixa, onde estava o alambique. Andamos à vontade, conversando, observando pássaros, sentido o cheiro de mato. O Daniel, mais familiarizado com o lugar, nos levou até um dos morros onde, do alto, podíamos falar e escutar o eco de nossa voz. Foi um festival de divertidas bobagens, só pra ouvir o eco repetindo tudo. Até o tio do Daniel, adulto e barbado, entrou na brincadeira.
Comer algumas frutas tiradas do pé foi uma experiência que me lembrou a infância vivida no bairro de Santa Terezinha, na Zona Norte de São Paulo, onde fazíamos nossas guerras de mamona, coroadas com um “assalto” às jabuticabeiras do vizinho austríaco.
Passada a metade da manhã fomos convidados a conhecer o alambique. Eu nunca tinha visto um. Olhando de cima para a dorna de fermentação havia uma espessa nata verde borbulhante, de cujas bolhas, ao explodirem devagar, se desprendia um cheiro acre e meio nojento. Se a cachaça tivesse aquele aspecto e o gosto daquele cheiro, nunca venderia.
Mas descendo pela lateral até o pé do alambique, tomamos uma pequena dose, servida pelo orgulhoso produtor.
Eu nunca tinha sido bebedor de qualquer coisa. Eventualmente cerveja, que me deixava enfastiado logo, ou um uísque em alguma comemoração. Mas esta experiência foi uma delicia. A cachaça tinha, ao final, o gosto da cana. Um pequeno gole, deixar na boca alguns segundos, sentir os aromas, engolir e sentir os sabores residuais. Primeira experiência de degustação de minha vida, orientada pelo sitiante.
Tomamos eu, o Daniel – que já conhecia bem o sítio, o seu tio e sua obra – e um pouco menos, o Donaldo, que no primeiro gole disse que sentiu arder, fez cara feia arrancando uma gargalhada geral e entregou o pequeno copinho num gesto de desistência.
A Marta, nem pensar. E acho que era mais por recato do que por não gostar.
Chamados para almoçar, a fome era de leão. Eu nunca tive muita certeza de que uma bebida alcoólica qualquer, tomada como aperitivo, abra mesmo o apetite. Mas lembro de termos comido muito e com muito gosto.
Arroz e feijão – que nunca foi o prato principal em minha família, de hábitos espanhóis – frango, polenta, saladas de verduras e legumes do próprio sítio, ovos, pão fresco, suco de laranja e de sobremesa, compotas, geleias, frutas em calda, bom… covardia, né?
Apresentar uma mesa assim a quatro adolescentes que, já pela idade, são naturalmente vorazes, e ainda após termos andado a manhã toda pelo campo, respirando um ar cheio de oxigênio e cheiro de fome e tomado um aperitivo de cachaça artesanal, não podia dar outra. Ao levantar-nos da mesa estávamos moles e sonolentos.
Varanda, rede, passarinhos cantando, barulho de vento batendo nas folhas das árvores em volta, cachorro latindo de vez em quando, lá longe. Nem cantiga de ninar conseguiria um resultado tão eficaz como esse conjunto.

Sábado, meio da tarde, queijos, pão e mais um passeio. Agora sem a companhia do tio, os quatro jovens andamos a esmo. Troca de olhares entre mim e a Marta, sem maiores consequências. Resolvemos ir até o alambique novamente. Mais uns copinhos, só eu e o Daniel, com olhar preocupado da Marta e reprovador do Donaldo.
Ao entardecer, subindo novamente em direção à casa, eu cantava alto, o Daniel ria, Marta e Donaldo nos seguiam observando.
À noite havia uma reunião de amigos do sitiante. Como eu não parava de cantar e rir, numa modorrenta bebedeira, o Daniel e o Donaldo me persuadiram a uma chuveirada fria, acompanhando-me inclusive até debaixo do chuveiro, já que meu zigue zague não acertava muito o caminho de chegada.

Manhã de domingo, café da manhã farto e eu ressabiado e em silêncio até que o tio aliviou o clima dizendo:
- Você canta bem, André. E conhece um montão de boleros né? Mais uma vinda sua aqui ao sítio e você vai cantar até música japonesa.
Já que todos riram, eu também ri. Mas estava envergonhado. Não tinha certeza de ter me comportado muito bem.
No ônibus de volta prá São Paulo, no começo da tarde, Donaldo e Daniel sentados em duas poltronas à nossa frente. Eu e a Marta logo atrás. Timidamente um pegou na mão do outro e assim começou nosso namoro que, no entanto nunca passou de pegar na mão. As noites em que eu a ia “namorar”, resumia-se a assistir TV na sala da pequena casa da família, sentados o pai relojoeiro, a mãe filha de espanhóis, o Daniel, e eu e a Marta num sofá de dois lugares onde ficávamos de mãos dadas.
Ao sair ela me acompanhava até a porta onde um beijo tipo selinho envergonhado era o máximo da intimidade para logo virar as costas e fechar a porta atrás de si.

Não durou muito esse namoro. Mas lembro de que no dia da vitória do Brasil, na cidade do México, um ensolarado domingo, 21 de junho de 1970, ao deixar o Edifício Anelhe na Av. Cásper Líbero em direção à casa da Marta, passei pela Av. Prestes Maia, onde um guarda de trânsito jogou o próprio quepe prá cima em resposta à animada comemoração que um grupo de pessoas, em cima de um caminhão, fazia ao passar.

Depois de algumas horas de animada conversa com familiares da Marta e ela própria – mais solta e alegre – despedi-me de todos e na porta, pela primeira e única vez, a Marta aceitou um beijo de verdade.

Duas lembranças que ficaram do Tri Campeonato. Um guarda comemorando, coisa quase impossível naqueles tempos, e o beijo da breve namorada.