AMIGOS BOLIVIANOS NOS 60

Postado em 12 de setembro de 2013

Sapo empalhado, cabeça de jacaré e outras “belezinhas” eram os presentes que um namorado boliviano de uma de minhas irmãs, trazia às vezes à nossa casa nos anos da Cásper Líbero. O rapaz estudava taxidermia. A outra tinha melhor sorte. O namorado dela, também boliviano, não trazia esquisitices. Cantava maravilhosamente bem, ao som do violão que ambos tocavam.

Na fase dos namorados bolivianos de minhas irmãs, ficou clara para nós a separação étnica daquele país, entre os “cambas”, descendentes de espanhóis e/ou europeus e os “collas”, que são os índios e seus descendentes.
Os que frequentavam minha casa eram cambas e diziam isso com muito orgulho. Como brincadeira, repetiam uma frase comum entre a população de sua região: “Haga pátria, mate un colla por día”.
Em tradução livre, mais ou menos como “seja patriota e mate um índio por dia”. Brincadeira bem pesadinha, digamos.
Eu e meus irmãos notávamos muitas diferenças entre esses dois grupos e comentávamos entre nós. Não era só a aparência europeia ou índia, mas os cambas gabavam-se de falar corretamente o espanhol, costumavam ser mais brincalhões, levemente arrogantes e, às vezes, um tanto matreiros, malandros.
Já os collas, falavam quase sempre um espanhol com forte sotaque índio, tendiam a ser mais humildes, sérios, mas ao empenhar a palavra, capazes de cumpri-la a qualquer custo. Uma espécie de honra indígena.
Nas noites em que eles nos visitavam a cantoria ia até altas horas e não raro, atraia alguns vizinhos amigos, encantados com a música alegre:
Llegando está el carnaval quebradeño, mi cholita,
Llegando está el carnaval quebradeño, mi cholita
Fiesta de la quebrada humahuaqueña para bailar
Erke, charango y bombo carnavalito para bailar

Ouça em: http://letras.mus.br/vives-carlos/1048932/
Ironicamente muitas das canções tocadas com emoção pelos dois cambas eram, na verdade, totalmente collas.
Na nossa turma da molecada do prédio também tínhamos um amigo boliviano, o Cacho (se pronuncia catcho). Este, colla, simpático, ágil, bom ciclista e péssimo jogador de futebol, como eu.

Naqueles fins de anos 60 irmos num domingo em um grupo de 12 ou 15 meninos e meninas da Cásper Libero, em bicicletas, até após do estádio da Portuguesa, na Marginal do Tietê e voltarmos por dentro, passando pelo Pari, Brás, região do Mercado e subir a Av. Senador Queiroz era uma tarefa fácil e prazerosa. Como ninguém tinha muito dinheiro, uma eventual parada num bar para matar a sede significava dividir um guaraná entre dois ou três. Mas depois, em casa, os Ki-Sucos e Tubaínas nos matariam o resto da sede.
A sensação de liberdade, o vento batendo no rosto e secando parte dos cabelos encharcados de suor, a risada fácil de adolescente, o prazer de ter a companhia de amigos queridos e, eventualmente, de alguma menina que se queria namorar, tudo isso junto fazia com que aos finais de semana a cidade de São Paulo inteira se transforma-se em um imenso clube, só nosso.
Às vezes eu e meu irmão Vicente fazíamos algumas incursões no mundo boliviano, visitando a casa de algum amigo ou indo a alguma reunião deles. Muita, mas muita comida, temperos fortes, carne de porco, cerveja e aguardente de milho fortíssima.
A masculinidade para eles era algo a ser provado o tempo todo. Então, quando alguém levantava um brinde ao visitante (no caso, nós) todos tinham que virar o copo, fosse qual fosse a bebida da rodada.
Isso nos estimulou rapidamente a não ir mais à casa de bolivianos em dia de festa.
Entre vários outros bolivianos, tínhamos um que era técnico em rádio e TV e que vinha à casa do cliente fazer os consertos quando necessário. Magérrimo, alto, rosto afilado, nariz pronunciado e tez morena, típica dos índios, trabalhava em silêncio durante horas se fosse preciso e pedia, no máximo, um copo de água.
Tímido e de pouca conversa, estava ele uma tarde fazendo seu trabalho na nossa TV, quando recebemos a visita de um rapaz chinês que vinha de vez em quando vender suas sedas coloridas, luminárias de pequenas lampadinhas chinesas, chaveiros com pequenas máscaras de demônios, dragões e outras figuras e talismãs, enfim, quinquilharias diversas que chamavam a atenção por suas cores, brilhos, e formatos.
Embora fosse chinês legítimo, falava bastante bem o português pois seus pais tinham vindo para o Brasil com ele ainda pequeno. Meio falastrão, alto, porte atlético, em determinado momento, não lembro porque, ele começou a falar para minhas irmãs como era possível desequilibrar e derrubar qualquer pessoa apenas com uma mão.
Para demonstrar, chamou o pacato boliviano que, com um sorriso tímido e sem graça, veio meio hesitante. O chineizão pós o pé direito para frente e ordenou ao rapaz que encostasse o pé direito no dele. Deram-se a mão direita, como num cumprimento, e o china começou a puxar seu oponente para um lado e para outro. Mas o magérrimo colla tinha um equilíbrio e elasticidade impressionantes.
Em poucos minutos o vendedor de badulaques orientais estava suando e mais vermelho que um tomate. Sua musculatura à mostra não dava conta do oponente. Até que num rápido e surpreendente movimento do representante andino o chinês veio se estabacar ao chão. Levantou rapidamente, sem graça, disse baixinho que tinha perdido o equilíbrio e voltou a sentar-se no sofá para continuar a mostrar seus produtos.
O boliviano voltou a debruçar-se atrás do televisor e pronto.
Não lembro mais de ter visto o vendedor de bugigangas voltar. Mas os bolivianos continuaram por muito tempo ainda a fazer parte dessa fase de nossa vida.
Cantando, nos dando porres de cachaça de milho, consertando rádios e televisores, divertindo-nos com sua alegria.