Réveillon da São Paulo dos anos 60

Postado em 31 de dezembro de 2019

No final dos anos 60 o réveillon da cidade não era muito diferente de hoje em dia, exceto pela enorme quantidade de rojões barulhentos e quase nenhuma preocupação com idosos, crianças, cachorros e outros viventes que hoje, começamos a ter consciência de que se incomodam com estrondos. Mas a comemoração em si mudou pouco.
Já o cenário, este sim era bem diferente. Sem internet nem celulares e com a TV bem mais pobre em programação, as pessoas conviviam muito mais e raramente havia TV ligada em qualquer reunião festiva. A atração era as visitas que se recebia em casa. O que sim estava presente sempre nessas ocasiões era a vitrola, os LPs e as fitas K7.
As músicas dos festivais da Record disputavam espaço com os Beatles, Johnny Rivers, Mirian Makeba, hits da MPB e outros.

Na falta de comunicação tão rápida e eficaz como hoje, as reuniões tendiam a ter participantes de surpresa. Algum amigo ou parente que resolvia, de última hora aparecer e não encontrou um orelhão funcionando pra telefonar antes ou, ainda, que não tinha fichas no bolso pra fazer a ligação da rua.
Aliás, a expressão “cair a ficha”, vem desse tempo. Se atualizássemos seria “fez download?” Esquisito.

As conversas mais frequentes, além dos festivais e do eterno futebol, costumavam ser sobre política, já que vivíamos um regime de exceção. Época do chamado Milagre Econômico, que fez o Brasil crescer em média 11% ao ano, de 1968 até 1973, embora isso fosse nos custar caro nos anos seguintes.
Entre um mini sanduíche de carne louca, espetinhos de salsicha com picles e copos de cuba-libre ou hi-fi, discutiam-se decretos do presidente Costa e Silva, escolhas do técnico da Seleção, Aimoré Moreyra e ações da polícia e exercito na caça ao Marighella, enquanto nos jornais recentes ainda aparecia a foto do capitão Carlos Lamarca dando treinamento de tiro para funcionárias do Bradesco. No ano seguinte ele também iria para a guerrilha.

À meia noite, champanhe Peterlongo, torta de pão de forma com maionese e tubaína ou Grapette, pra quem não bebia ou queria se hidratar. Tudo acompanhando a São Silvestre já que desde as 23h a TV era ligada para a torcida da prova, cuja largada ocorria próximo da virada do ano.
Abraços, promessas, sonhos, mais alguns goles e brindes meio embriagados, os que tinham pique pra tal, ganhavam as ruas desertas de São Paulo em direção aos pouquíssimos bares que ficavam abertos até de madrugada, como o Bar das Putas, no alto da Rua da Consolação, hoje batizado de Sujinho, o Redondo, no final da Av. Ipiranga ou Rivera, no final da Consolação.
Os que preferiam ver nascer primeiro sol do ano novo costumavam juntar-se aos parentes e amigos que já estivessem na praia. Alguns iam para o alto do Morumbi ou Praça do Por do Sol, em Pinheiros.

Quem não tinha essa disposição, tratava de ir dormir ao som dos últimos bebuns da vizinhança e acordar cedo pra tomar café nas boas padarias que São Paulo sempre teve.
Essa é uma opção deliciosa até hoje.
Feliz Ano Novo!!