LEMBRANÇAS DE CERVEJA, QUANDO EU SÓ BEBIA KI-SUCO

Postado em 13 de abril de 2013

Na calçada do bar do Abdala, na rua Conselheiro Moreira de Barros, em frente a um posto de gasolina, eu brincava de bolinha de gude com o neto dele em algumas manhãs de sábado, quando acompanhava meu pai que, lá dentro, tomava uma cerveja antes do almoço. Cerveja era coisa especial, apenas para uma vez por semana ou só em festas. Adulto que bebia com um pouco mais de regularidade, tomava uma pinguinha “digestiva” ou como aperitivo prá abrir o apetite. Ou, com limão, pra sarar do resfriado (bebum tem sempre um bom motivo, né?).
A cerveja que meu pai e os demais adultos tomavam era quase a única disponível: Pilsen Faixa Azul da Antártica. Quando aos 8 anos meu pai me deixou experimentar um gole, achei horrível, amargo. Era inacreditável que gente grande gostasse de beber uma coisa tão ruim.

Havia outras, mas para ocasiões específicas. Cervejas fortes eram consumidas preferencialmente para acompanhar um sanduiche num almoço rápido (não existia “fast-food”) ou para aumentar o leite de mulher amamentando.
Nessa categoria estavam a Caracu e a Malzebier, levemente adocicada.
Caracú - Cervejaria Rio ClaroO slogan da Caracu era “Beber Caracu é Beber Saúde”. Misto de alimento e remédio, portanto. Um homem bebendo Malzbier então seria motivo de gozação imediata. “Tá grávido?”. Alguns bares e empórios tinham também a Porter e a Hércules, da Brahma, com um mercado ainda modesto em São Paulo, onde a Antártica era líder absoluta.

Noutra categoria estavam as “cervejas premium” da época. A maioria delas servida e celebrada como uma grande cerveja, mas no fundo costumavam ser apenas menos comuns e, por isso, tão desejadas. Quase todas do tipo pilsen.
Nos anos 50 e 60 variedade de um produto de consumo significava duas marcas, três no máximo.
Cerveja Polar, do Rio Grande do Sul, Original, da Cia. Cervejaria Adriática (isso mesmo, não é Antártica) de Ponta Grossa, no Paraná, a Bohemia de Petrópolis e outras menos afamadas eram, geralme
nte, as vedetes de momentos especiais e conferiam status a quem as oferecia.
Lembro de acaloradas discussões dos adultos sobre a influência da água, o casco (garrafa) âmbar ou verde, também comum nesse tempo, o transporte por maior ou menor distância. Quase ninguém falava sobre lúpulo ou cevada. Malte então, acho que só sabia o que era, o pessoal das fábricas de cerveja.
Claro que havia muitas outras pequenas marcas pelo Brasil. Mas o mercado era fortemente regional.
As propagandas mostravam festas ou garçons sorridentes. Mulher sensual, nem pensar.

Nós, garotada entre 8 e 12 anos, tomávamos guaraná ou tubaína nas festas, Ki-Suco, aos domingos e a pura e boa água de filtro de barro no dia a dia.
Hoje, quando degusto uma boa cerveja, comprada com facilidade e de qualquer parte do mundo, penso na sorte que tenho de dispor de algumas centenas de sabores onde o componente amargo que na infância me produziu cara feia, agora tem intensidades variadas e prazerosas.

E a propaganda de cerveja da infância ganhou um colorido verde-amarelo em 1962 quando o Brasil foi Bi-Campeão. Tocava pela segunda vez o hino popular… “A taça do mundo é nossa, com brasileiro, não há quem possa…”